12/02/2004 20:25
A aventura de degustar um espetinho de gato
Pra variar o ônibus estava atrasado em meia hora. Eu estava lá igual um babaca no ponto de ônibus comendo fumaça de um churrasqueiro maldito que teve a brilhante idéia de fazer sua empresa bem debaixo do mesmo. O empresário cachaceiro a cada dois minutos soltava uma frase assim:
- Ai meu Deus... Me dá um emprego descente pra mim sair logo dessa vida!
Eu estava com uma fome de mendigo, então comecei a pensar na possibilidade de me alimentar com carne de gato.
Pensei, pensei e desisti na hora que vi o jeito que o cara apagava as labaredas da churrasqueira.
Um pote de detergente vazio, cheio de molho de pimenta era a água dele sobre a carne. O cara não tinha dó nem piedade... Eram várias com força. Pra comprovar que não é exagero, eu digo que o pote com uns 500 ml de pimenta acabou em menos de três apagadas.
Pra minha (in)felicidade, aparece um sujeito que compra um espeto.
Eu fiquei atento as expressões faciais do homem, e percebi que ele não fez careta alguma ao comer a carne.
Num ato de desespero, peguei um real da minha carteira, respirei fundo e falei:
- Você tem espeto de peixe ae?
Ele falou que tinha e já passou a mão no meu dinheiro.
Fiquei olhando pra cara dele e ele nada de me dar o espeto...
- Ow manguaça... O espeto ta cru?
Ele disse:
- Não... Só estou dando uma esquentada se não ele pode fazer mal pro estrombo.
Confesso que fiquei com medo do que ele disse, mas tudo bem...
Logo que peguei o espeto na mão já vi que tinha sido enganado pelo desgraçado. O espeto era de carne e não de peixe. Fingi que estava tudo certo e tentei morder o gato grelhado.
Bem nessa hora estava passando um comboio de funcionários de uma empresa que ficaram abismados ao ver a minha luta mortal querendo tirar a carne do espeto.
Depois de muita luta, venci o pedaço de carne que se desprendeu do espeto. Comecei a mastigar, mastigar, mastigar, mastigar, mastigar... e a carne continuava do jeito que eu tirei do espeto. Mastiguei por uns 20 minutos o mesmo pedaço e vi que não ia ter jeito...
Eu ainda estava no ponto de ônibus quando o matador de gatos solta a frase:
- Ta macia a carne ae grande?
Que audácia a dele, ele viu todo meu sofrer e ainda faz um humor sádico com o produto que ele vendeu.
Eu nem respondi o que ele falou.
De repente surge um cachorro do meu lado, abanando o rabo e sedento por um pedaço de gato. O cão tinha certeza que eu ia cospir aquela carne que estava tentando engolir. Fiquei com dó dele, e ainda mastigando a carne borrachuda tirei um pedaço de gordura que veio junto com o espeto e joguei.
Finalmente engoli um pedaço de carne. Mas não me arrisquei com os outros seis restantes e dei de presente pro canino de rua.
Na moral... é um pecado fazer isso com pessoas coitadas que estão com muita fome.
Pra finalizar, meu ônibus finalmente chegou. Até que olhei para o fumacento e vi uma criança que nem dentes permanentes tinha, comprando um espeto mortal.
Bem, tudo que eu quero é que Deus ajude esse sujeito a arrumar um outro trabalho, mas dessa vez beeeem longe da churrasqueira e que não tenha nenhum contato com o publico nem com a pingaiada.
enviada por Bruno Moura
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